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Wednesday, December 2, 2015

Consenso sobre a crise do EURO (tentativo)



O que mudou em relação à minha análise de 2012? Nada, ocorre que o BCE (leia-se Mario Draghi) salvou o Euro, ao garantir veementemente o seu papel de credor de última instância, mas os países do GIIPSI ainda tem um desempenho pouco impressionante no melhor dos casos. Salienta-se que a Grécia, conspicuamente o pior dos casos, já se encaminha para o seu 7º ano de recessão. Assim, resta a questão: vale a pena fazer parte do distinto clube do Euro, ao custo de uma década perdida? Por mais dolorosa que seja a transição para o novo dracma, pelo menos se recuperaria a autonomia da política monetária e cambial, ao final do processo. A Grécia já sofre há 7 anos e deve continuar sofrendo, enquanto a espiral de desemprego e deflação não surtir efeito significativo sobre a competitividade grega. Porém, mesmo se voltar a crescer, continuará dependente da boa vontade do BCE e dos sócios majoritários do clubinho, restando apenas torcer para que não haja um novo choque assimétrico.

Todavia, já me estendi demasiadamente nesta digressão - apesar de ser livre (hehe) -, então, sem mais delongas, eis a narrativa em torno da qual o pessoal benigno da VoxEU tenta criar um consenso:


Although the authors hark from diverse backgrounds, we found it surprisingly easy to agree upon a narrative and a list of the main causes of the EZ Crisis. We say “surprisingly” since EZ policymakers remain attached to very diverse narratives of the Eurozone crisis.
The need for a consensus narrative.

Formulating a consensus on the causes of the EZ Crisis is essential. When terrible things happen, the natural tendency is to fix the immediate damage and take steps to avoid similar problems in the future. It is impossible to agree upon the steps to be taken without agreement on what went wrong. Absent such agreement, half-measures and messy compromises are the typical outcome. But this will not be good enough to put the EZ Crisis behind us and restore growth.

This is why formulating a consensus narrative of the EZ Crisis matters so much. Eurozone decision-makers will never agree upon the changes needed to prevent future crises unless they agree upon the basic facts that explain how the Crisis got so bad and lasted so long.
The EZ Crisis was a ‘sudden stop’ crisis.

The core reality behind virtually every crisis is the rapid unwinding of economic imbalances. In the case of the EZ crisis, the imbalances were extremely unoriginal – too much public and private debt borrowed from abroad. From the euro’s launch till the Crisis, there were big capital flows from EZ core nations like Germany, France, and the Netherland to EZ periphery nations like Ireland, Portugal, Spain and Greece.

Importantly, the EZ Crisis should not be thought of as a government debt crisis in its origin – even though it evolved into one.
Apart from Greece, the nations that ended up with bailouts were not those with the highest debt-to-GDP ratios.

Belgium and Italy sailed into the Crisis with public debts of about 100% of GDP and yet did not end up with Troika programmes; Ireland and Spain, with ratios under 40%, needed bailouts.

The real culprits were the large intra-EZ capital flows that emerged in the decade before the Crisis.

These imbalances baked problems into the EZ ‘cake’ that would explode in the 2010s. All the nations stricken by the Crisis were running current account deficits. None of those running current account surpluses were hit.

When the EZ crisis started, there was a ‘sudden stop’ in cross-border lending. Investors became reluctant to lend – especially to banks and governments in other nations. The special features of a monetary union meant that the ‘sudden stop’ was not precipitous (as it was, for example, in Iceland).

Rather this ‘sudden stop with monetary-union characteristics’ showed up in rising risk premiums. The abrupt end of capital flows raised concerns about the viability of banks and governments in nations dependent on foreign lending, i.e. those running current account deficits. Slowing growth produced big deficits and rapidly increasing public debt ratios. When things got bad enough, several governments had to take on some of their banks’ debt, thus increasing national debt ratios even further. This is how a balance of payments crisis became a public debt crisis.

Why EZ membership mattered: Crisis amplifiers

Monetary union mattered since it allowed the cross-border imbalances to get so large with such little notice before the Crisis struck. It also mattered since the incomplete institutional infrastructure amplified the initial loss of trust in the deficit nations in several ways.
EZ governments who got into trouble had no lender of last resort.

Absent a lender of last resort, a small sustainability shock could be amplified without bound due to the deadly helix of rising risk premiums and deteriorating budget deficits stemming from higher debt servicing costs. This debt-default-risk vortex caught Portugal and came close to catching Italy, Spain and Belgium. Even France and Austria floated into the penumbra of debt vortexes at the height of the Crisis.

The other classic crisis response – devaluation – was impossible for euro-using nations. W1
Taken together, these two features meant their euro-denominated borrowing was akin to foreign currency debt in a traditional, developing nation ‘sudden stop’ crisis.
The close links between EZ banks and national governments greatly amplified and spread the Crisis.

This is the so-called ‘doom loop’ – the potential for a vicious feedback cycle between banks and their government. It was one of the key reasons that a single surprise in Greece could swell into a systemic crisis of historic proportions.

The predominance of bank financing transmitted bank problems to the wider economy.

As the ‘doom loop’ and slowing economy raised uncertainty, investment suffered much more than in countries where bank financing is less central, such as the US. This weakened economies in ways that worsened the sustainability outlook for nations and banks.

The rigidity of factor and product markets made the process of restoring competitiveness slow and painful in terms of lost output.

The whole situation was made much worse by poor crisis management. Mistakes were made, but above all there was nothing in the EZ institutional infrastructure to deal with a crisis on this scale. EZ leaders faced the dual challenge of fire-fighting and institution-building – all in a situation where the interests of debtors and creditors diverged sharply and European electorates were closely following developments.


Judging from market reactions, each policy intervention ‘saved the day’ but made things worse from the next day on. The corner was only turned in the summer of 2012 with the decision to set up a banking union and the “whatever it takes” assertion by ECB President Mario Draghi.

Wednesday, September 5, 2012

André Lara Resende à revelia dos fatos

Em artigos para o grande público, não raro um economista tenta abstrair da conjuntura uma tese majestática, como desfecho do desfile de sua própria erudição. Feito com minúcia, isso pode resultar em um texto interessante e relevante para análise econômica. Contudo, a maioria ou se concentra na parte empírica, sem muito rigor bibliográfico, ou se atém às doutas palavras dos gigantes de outrora, sem se ocupar extensamente com a aderência delas aos fatos. O artigo para o Valor do dia 31/08, escrito por André Lara Resende, possui trechos que o classificariam no segundo grupo. Não se trata de um exercício mesquinho de “apontar o dedo”, em vez disso, o destaque dos trechos abaixo constitui mera reação à perigosa visão a eles subjacente, que parece persistir mesmo não resistindo ao exame factual.Trata-se da visão de que o ferramental keynesiano não pode e não deve ser utilizado, por integrar um modelo que ora atinge seus limites. Por isso, compreende a visão de que a política fiscal deve permanecer inerte, mesmo diante de uma armadilha de liquidez, situação em que capital e trabalho encontram-se ociosos, a espera de um estímulo que os coloque em movimento.
1. Referência a Schumpeter: “Defensor entusiasmado do capitalismo e da fecundidade do espírito empresarial - do "entrepreneur" - enfatizou a importância da "destruição criativa" do capitalismo como mola propulsora dos avanços em todas as esferas da sociedade. É provável que, ao se domesticar o capitalismo, ao controlar artificialmente suas forças cíclicas naturais, pode-se ter esclerosado grande parte de suas virtudes, de sua força criativa e renovadora.”
O trecho acima faz alusão ao capítulo O Processo de Destruição Criativa, do livro Capitalismo, Socialismo e Democracia. No processo de “destruição criativa”, haveria o desparecimento de uma estrutura produtiva e o surgimento de uma nova, decorrente de alguma inovação. Nesse ínterim, postos de trabalho desapareceriam e os trabalhadores que os ocupavam não seriam capazes de migrar de imediato para o setor emergente, ou por não possuírem as habilidades necessárias, ou por outras dificuldades como a diferença de localização. Dessa forma, transitar-se-ia por um estado recessivo temporário, associado ao ajuste estrutural da oferta agregada, que, em última instância, resultaria em uma estrutura produtiva mais eficiente. Portanto, caso o Estado interviesse neste momento, por exemplo, provendo subvenções às empresas dos setores cadentes, a acomodação da oferta à inovação seria dificultada e seus ganhos adiados, na melhor das hipóteses.
Contudo, a recessão que observamos hoje nos EUA e na Europa decorre da falta de demanda efetiva e não de um ajuste estrutural da oferta. Como o próprio autor coloca, “Consumidores sobre-endividados poupam toda renda adicional para reduzir suas dívidas”. Em outras palavras, a desalavancagem do setor privado mantém deprimidos o consumo e o investimento, conforme é demonstrado para o caso da Europa em post anterior. Por conseguinte, uma política fiscal mais ativa poderia ser empreendida para restabelecer o pleno emprego, sem o risco de "esclerosar" as "molas propulsoras" do progresso.
2. Limite de endividamento: “Governos sobre-endividados, que gastam mais do que arrecadam, correm o risco de perder a credibilidade e não serem mais capazes de refinanciar suas dívidas. Uma verdadeira sinuca de bico.”
A partir de que ponto um governo seria considerado “sobre-endividado”? O governo do Japão possui uma dívida líquida que representa 112% do seu PIB e paga uma taxa em torno de 0,8% a.a. sobre seus títulos da dívida de 10 anos. Já a razão dívida-PIB de Alemanha, França, Reino Unido e EUA equivale a, respectivamente, 56%, 80%, 71% e 73%. Não obstante, pagam aos credores de mesmo prazo as taxas anuais de 1,5%, 2,2%, 1,65% e 1,55%. Será que algum desses países parece sequer se aproximar de uma crise de endividamento? Raramente um país de porte razoável, que possui instituições sólidas e emite sua própria moeda terá problemas de credibilidade, mesmo quando seu endividamento for tão substancial quanto o do Japão. Portanto, é muito provável que os governos dos países supracitados possam estimular a recuperação econômica, com recursos advindos da emissão de dívida, sem ameaçar sua credibilidade ou sustentabilidade da dívida.

(Alemanha e França não estão em situação tão ruim, mas, se quiserem salvar o Euro, devem pensar de forma sistêmica - vide post anterior)


3. Duas restrições ao uso do instrumental keynesiano: “A aplicação do remédio keynesiano é hoje questionável. A possibilidade de que estejamos próximos de duas restrições, que eram ainda distantes nos anos 1930, exige, efetivamente, repensar os rumos do capitalismo. A primeira é o limite do tolerável - no sentido de não vir a se tornar disfuncional - da participação do Estado na economia. Em toda parte, até mesmo onde o capitalismo nunca foi seriamente questionado, como nos Estados Unidos, houve, ao longo de todo o século XX, sistemático aumento da carga fiscal e da participação do Estado na renda nacional. As respostas, tanto para a crítica econômica - da instabilidade intrínseca - quanto para a critica social - da desigualdade crônica - ao capitalismo, levaram ao aumento da participação do Estado na economia.
A segunda nova restrição é a proximidade dos limites físicos do planeta. É evidente que não será possível continuar indefinidamente com a série de ciclos de expansão do consumo material, alimentado pela turbina do crédito, até uma nova crise, que só se resolve com mais crescimento. A menos que haja uma radical mudança tecnológica, será preciso encontrar a fórmula do aumento do bem-estar numa economia estacionária. A mudança tecnológica não parece provável, pois a questão do ambiente é um caso clássico de bens públicos, que o mercado não precifica de forma correta. Pode-se dizer que os problemas do capitalismo são decorrentes do seu sucesso. As respostas desenvolvidas para aplacar as críticas, quanto à instabilidade intrínseca e à injustiça social, levaram a um extraordinário aumento do consumo material e da participação do Estado na renda.”
Quanto à primeira restrição, o autor apenas diz que a participação do Estado na economia pode atingir um patamar em que se torna disfuncional e que há a possibilidade de os EUA estarem próximos dele. Contudo, não é apresentada nenhuma evidência, empírica ou bibliográfica, de que tal limiar está próximo ou sequer existe. Dessa maneira, conclui-se que se trata apenas de um sentimento do autor, o que não requer contra-argumento.

Já no caso da segunda restrição, é invocado um ponto que também me preocupa, o limite físico do planeta. É fato que os nossos recursos naturais, em especial os combustíveis fósseis, dificilmente comportariam a universalização do padrão de consumo dos países desenvolvidos. Apenas para se ter noção da distância entre padrão de consumo do Brasil e de países como os EUA, em 2011, o consumo de gasolina do Estado da Califórnia (37 MM hab.) foi de 55,4 bilhões de litros, enquanto em todo o Brasil (190 MM hab.), o mesmo dado foi da ordem de 35,4 bilhões de litros. Contudo, observar a eventual convergência do Brasil é menos preocupante do que olhar para o conturbado movimento de urbanização ora em curso na África e na Ásia. A ONU estima que, até 2050, a população urbana da África aumentará de 414 milhões para 1,2 bilhões e a da Ásia de 1,9 bilhões para 3,3 bilhões. Isso implicará um consumo mais intensivo em energia, o que pressionará ainda mais as reservas de combustíveis fósseis. Considerando que, mantida a atual produção mundial de petróleo constante, demoraríamos apenas 54 anos para exaurir as atuais reservas, de fato é necessário repensar o crescimento de longo prazo à luz dos limites físicos da Terra. Entretanto, a preocupação com o impacto dos novos 2,2 bilhões africanos e asiáticos urbanos não impede que se criem condições para incorporar os milhões de desempregados do mundo desenvolvido ao mercado de trabalho. Segundo o FMI, desde a crise de 2008, o número de pessoas empregadas caiu 9,5 milhões e a população aumentou 16,5 milhões, nas economias consideradas avançadas. Assim, o estímulo suficiente para contrabalancear os efeitos da crise deveria restaurar algo em torno de 26 milhões de empregos, o que pressionaria muito pouco o estoque de recursos naturais, quando comparado ao inexorável movimento da população do campo para as cidades (Quadro abaixo).

Portanto, argumento algum do autor, por si só ou em conjunto, se aproveita para advogar contra o “receituário keynesiano”, segundo o qual o governo deve executar seu orçamento de maneira anticíclica, poupando nos períodos de bonança e elevando os déficits diante de uma recessão.






Thursday, September 29, 2011

Muito profunda e de duração indeterminada

No início de 2008, o Krugman já antecipava a ocorrência de uma recessão e se questionava sobre sua gravidade e duração.

Para balizar sua meditação, rememorou as crises de 1990-91 - resultante de uma ruptura de crédito - e de 2001 - fruto de um sobreinvestimento. Tendo em conta que a crise iminente seria desencadeada por uma combinação de ambos os fatores, Krugman imaginava um cenário de recessão profunda e duradoura.

A continuação do gráfico mostrado no post linkado responde a uma das questões - a recessão iniciada em 2008 já se mostra mais severa que a conjunção das anteriores.

Já a questão da duração, que já completou 3 anos, só o tempo revelará mas já se observa que a ligeira elevação do emprego ensejada pelo minguado pacote de estímulos se esvai. Além disso, a perspectiva de se aprovar no congresso o ainda mais tímido programa de geração de empregos é bastante ruim.

Mais comentários alvissareiros no próximo post :(

Monday, September 13, 2010

Irã Repensado





No post anterior, afirmei que a degradação fiscal e a recessão econômica que assolam os EUA reduziriam a margem para eventual invasão do Irã. Não obstante, reflexão mais cuidadosa sugere ser possível um epílogo menos pacífico. Examinando mais de perto a conjuntura política yankee, os multiplicadores de renda e o desfecho da Grande Depressão, fico um pouco mais inquieto, embora ainda pense que um novo século americano seja uma possibilidade remota.
Olvidados de John Maynard Keynes, os EUA adentraram a armadilha da liquidez, onde os juros beiram zero - o que significa que a política monetária tradicional perdeu tração - e o desemprego se prolifera em ambiente progressivamente deflacionário.  Se fosse qualquer outra nação, isso não afetaria o sono dos governantes do Heartland, entretanto, trata-se do país com o maior poderio militar do globo e histórico de atacar problemas econômicos com soluções bélicas.
Ao assumir a Casa Branca no início de 2009, a primeira grande tarefa do presidente Obama era propor um pacote de estímulo econômico capaz de fazer frente à mais severa crise financeira desde 1929. Para dificultar a vida de Obama, a usual polarização partidária se refletia na opinião econômica de acadêmicos, conselheiros, profissionais e políticos.
Por um lado, o diagnóstico keynesiano apontava para uma demanda efetiva insuficiente e, por conseguinte, o receituário correspondente era aumentar os gastos públicos na mesma proporção do colapso de consumo e investimento privados.
Por outro lado, tal visão era contraposta pela idéia de que a crise representava o fim de um ciclo econômico e, dessa forma, o desemprego elevado seria mero reflexo de um ajuste do arcabouço produtivo, necessário para dar início a um novo ciclo. Logo, recomendava-se cortar impostos com fito em catalisar a transição.
Posto de outra forma, os keynesianos identificavam um problema de demanda efetiva, enquanto os conservadores conjecturavam uma readequação da oferta agregada.
Qual lado o presidente Obama escutou? Infelizmente, tentou acomodar ambas as visões. Na época, Obama vislumbrava soluções bipartidárias para o país, baseadas em acordos harmoniosos entre Democratas e Republicanos.  Desafortunadamente, Obama se deixou influenciar por tais devaneios políticos em uma situação que exigia visão mais próxima do “chão de fábrica”. Assim, o projeto encaminhado ao Congresso em 2009 trazia estímulo de US$ 800 bilhões diante de um hiato do produto de US$ 2,9 TRILHÕES, segundo estimativas do Congress Budget Office para o horizonte bienal. Além de sua dimensão acanhada, 40% dos US$ 800 bilhões assumiam a forma de isenções fiscais virtualmente inócuas, inclusas para abarcar os escusos intentos republicanos.
Dessa forma, ao tentar abarcar percepções diametralmente opostas, motivado por ilusões bipartidárias, Obama desperdiçou as condições políticas favoráveis de que dispunha no início de seu governo, quando sua taxa de aprovação gravitava em torno de 65% e os democratas detinham 253 dos 435 assentos da Câmara e 59 dos 100 assentos do Senado.
Agora, conforme cessam os efeitos do insípido estímulo econômico, o desemprego bate 9,3%, o subemprego atinge 18,6% e, conseqüentemente, a popularidade de Obama despenca para 45% e descortina-se cenário bastante desfavorável para as eleições de novembro próximo, com 53% dos norte americanos declarando intenção de eleger legisladores republicanos. Portanto, daqui em diante será praticamente impossível passar pelo Congresso qualquer rodada adicional de estímulo econômico, ainda mais da magnitude necessária para retirar os EUA da armadilha da liquidez.
Sem embargo dos fatos, vamos supor que a política fiscal seja uma opção, apenas por diversão. Nesse caso, que tipo de gasto surtiria mais efeito em termos de elevação da renda? Auerbach & Gorodnichenko (2010) pode nos ajudar a pensar. Segundo os autores, durante uma recessão, cada US$ 1 gasto pelo governo em consumo corrente eleva a renda em US$ 2,11, enquanto investimento público aumenta em US$ 2,85 e gastos militares US$ 3,56, conforme pode ser visto na figura abaixo. Portanto, o maior multiplicador de renda está associado aos dispêndios bélicos.
Opa! Quem gosta de guerra? Certamente os republicanos gostam um bocado, já que isso os permite acessar os excedentes do poderoso complexo industrial armamentista. E quem quer minorar a dor de milhões de trabalhadores americanos desempregados ou subempregados? Seguramente os democratas, mas talvez não ao custo de uma guerra.
Contudo, não seria a primeira vez que isso acontece. Isso mesmo, estou pensando em Pearl Harbor. Um ataque japonês à base do Pacífico, enquanto as mais importantes armas navais dos EUA repousavam em San Diego, permitiu a entrada dos Yankees na Segunda Grande Guerra. A partir disso, o intenso esforço de guerra finalmente criou demanda agregada suficiente para alavancar a saída dos EUA da armadilha da liquidez em que se encontravam desde 1929.
Não é possível estabelecer causalidade inequívoca entre a Grande Depressão e a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, mas também não há dúvida de que, apesar das baixas, a empreitada militar os beneficiou largamente ao dar início aos anos dourados da economia americana. Não estou dizendo que houve um plano premeditado para resolver o imbróglio econômico por vias militares. Afirmo apenas que as circunstâncias políticas e diplomáticas podem tornar a opção de guerrear muito atraente para ambos os partidos.
Como isso se relaciona com o Irã? Pense bem, o gabinete de Obama não tem chances reais de aprovar programa efetivo de gastos. Ao mesmo tempo, o Irã tem sido irredutível quanto à inspeção internacional de seu programa nuclear e os Republicanos adorariam a idéia de um ataque preventivo. Em adição, o apoio imediato do lobby da indústria bélica seria endossado por grupos interessados nos negócios de reconstrução e petróleo. Além disso, do ponto de vista geopolítico, a ocupação do Irã (10%) consolidaria o acesso a 754 bilhões dos 1,3 trilhões de barris das reservas mundiais, já que os demais países dotados de grandes reservas como Arábia Saudita (20%), Iraque (18,6%), Kuwait (7,6%) e Emirados Árabes (7%) possuem governos favoráveis aos EUA. Com isso, os EUA garantiriam fácil acesso a mais da metade das reservas conhecidas de petróleo, o que é bastante conveniente dado que eles consomem 22% do que é extraído anualmente.
Portanto, qualquer ataque terrorista ou incidente equivalente ao ocorrido em 11 de setembro de 2001, mesmo que apenas longinquamente atrelado ao Irã, poderia resultar na ocupação do país pelos EUA e forças de coalizão, pois:

1.       Geraria demanda efetiva em período de recessão.
2.       Consolidaria acesso a recurso escasso e estratégico
3.       Encontraria apoio junto a congressistas, pressionados por poderosos lobbies.



Entenda. Não afirmo que o Irã será inexoravelmente invadido, observo apenas que há barris de pólvora assentados sobre tecido embebido em combustível. Ou seja,  o que eu quero dizer é que se eu fosse o presidente Ahmadinejad, não brincaria com fogo no recinto.



Multiplicadores de renda





Participação de países do Oriente médio nas reservas mundiais de petróleo em 2009